Fui ao Forum para ler uma processo de falência.
O Cartório estava tranquilo e a recepção foi excepcional. Conversei com os funcionários e mostrei a dificuldade que é entrar no site para verificar o andamento de qualquer feito.
Falamos sobre a PRODESP e contei a história do Procom.
Em outras palavras, fui muito bem recebida e tratada. Coisa rara no Forum, mas aconteceu comigo.
Privilegiada como sou, ganhei até um cantinho com mesa e cadeira para ler o calhamaço de 18 volumes.
Estava eu entretida com minha leitura quando uma voz forte pergunta pelo Diretor do Cartório. Homem com mais de 60 anos, em camisa sem paletó e sem gravata. Estava nervoso e agitado.
O Diretor estava atendendo outra pessoa e dirigiu-se ao homem e lhe pediu para esperar um minuto para o atendimento.
- Eu tenho preferência porque sou Juiz. Olhe minha carteira funcional, estrilou o homem.
- O Senhor quer aquela certidão que já está pronta e sobre minha mesa. Preciso acabar esse atendimento, conferir sua Certidão e assina-la.
- Tenho direito a atendimento preferencial porque sou Juiz!!!
O Diretor continuou o atendimento que estava em andamento.
- Vou falar com meu colega. Assim não é possível!
Em menos de 3 minutos aquele homem gritara 3 vezes com o Diretor do Cartório e saiu para se dirigir ao Juiz.
Claro que os comentários comeram assim que ele se afastou. Eu fiquei observando a tudo e a todos e não me contive:
- Gente, o que é isso? Desde quando a lei dá privilégios para Juiz que vem ao balcão buscar um papel? Sou muito ignorante, mas o privilégio é para idosos, gestantes e portadores de necessidades especiais.
- Juiz aposentado, Doutora, disse a simpática serventuária que me ofereceu suco de uva.
- Se for Juiz. Carteira funcional se compra por dez reais aí na praça em frente ao Forum, disse outra funcionária.
- Aqui ele não estava na posição de Juiz. Era um cidadão como outro qualquer. Onde já de viu ser grosseiro como ele foi... Comigo ele teria recebido uma resposta e tanto!
- Doutora, nosso Diretor é muito calmo.
- Eu vi! Ele nem levantou a voz. Tentou contornar a ansiedade do outro e recebeu gritos! Privilégio deveria ter advogado que encosta a barriga no balcão no exercicio profissional. Faltou berço para esse homem, disse eu, depois de agradecer o tomar o delicioso suco.
O Diretor entrou na sala, conferiu a Certidão e assinou. O telefone o convocou para a sala do Juiz.
- Já tem sua certidão? Agora saia da minha sala que tenho mais o que fazer, disse o Juiz da Vara ao Juiz aposentado.
- Vou à Corregedoria. Isso não fica assim!
O Diretor contou para nós e ainda brincou comigo:
- A Doutora está se divertindo, não está?
- Sim, eu me diverti com a situação toda e em especial com as falcatruas que li na falência. O picareta deu golpe de mais de 45 milhões de reais na praça, mas antes, desapareceu com a escrituração da empresa e com os bens dela e os pessoais.
- Aposto que sua cliente fica ligando para saber quando sairá o dinheiro dela. O pior é que talvez ela não venha a receber qualqur importância.
- Acho que vou voltar a executar na Justiça do Trabalho. Vou tentar que o Juiz do Trabalho desconsidere a personalidade jurídica e assim posso penhorar um terreno da pessoa física que achei aqui.
- Nossa, seria ótimo e a Senhora receberia...
- Diretor, eis meu cartão. Caso você precise é só me chamar que sou testemunha do que aconteceu aqui. Esse tal de Juiz aposentado esqueceu a educação em casa; esqueceu que não tem privilégio algum por ser juiz aposentado; esqueceu que é parte num processo e que tem advogado constituido nos autos para retirar a Certidão; esqueceu que há previsão no Código Penal para esse tipo de comportamento descrito como crime, podendo o faltoso ser processado. Tenho certeza que ele não vai conseguir nada indo até a Corregedoria, mas, nunca se sabe.
Saí de lá estarrecida. Imagine como esse homem deve ter sido quando no exercício do cargo! Arrogante, sem educação, despreparado emocionalmente...
- Ele pensa que é Deus! disse uma outra serventuária, baixinho, para mim, enquanto eu saia.
Bjkª. Elza